quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

É menina!

Nasceu
Parabéns, é uma menina 
Vai dar trabalho, hein 
Enche de rosa, florzinha

Põe brinquinho
Entoca uma boneca
Ah, que lindo o instinto materno.
De aniversário dá uma mini tábua de passar roupa

Um minifogão com várias panelinhas 
Que é pra aprender desde cedo
É do-lar
Do-marido

De outrem
Nunca sua
Cresce
Senta como mocinha! 

Tenha modos 
Menstrua esse sangue sujo 
Vaza
Denuncia

Esconde esse absorvente
Absorva
Não é gente
Tem que estar bonita, arrumada

De peitos de fora na propaganda de cerveja
De mãos decepadas pelo "companheiro"
De sonhos castrados logo na maternidade
Põe mais maquiagem 

Tem que ser mais feminina
Vai sair sem batom?
Esconde essas espinhas 
Arranca esses pelos que saem de você 
São sujos

Imundos
Sua porca!
Gostosa
Meus olhos te devoram

Te constrangem
Te fazem trocar caminhos
Por que anda sozinha na rua? 
Não te ensinaram 

Que é do-lar?
É minha também 
Como uma carne exposta no açougue
Ou uma roupa na vitrine

Te avalio
Acho que tenho direito
Posso te tocar? 
Te comprar?

Te comer?
Vadia
Estuprada
Mas com que roupa tava?

Andando a noite na rua?
Também...
Tava pedindo
Provocou com o decote

A saia devia ser curta demais
Morta pelo ex namorado
Ah, crime passional 
Ciúmes

Em menos de um mês tava com outro
Merecia
Coitado do homem,
Amava tanto a moça

Mortas 
Todos os dias 
Mas renascemos
Nossas raízes são mais profundas

Não vai calar nossa voz, nosso grito
Somos gente!
Existimos!
Resistimos!

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